domingo, 2 de maio de 2010

Tenho direito à indignação

Não sou o tipo de pessoa que se sente permanentemente incompreendida, rejeitada ou desvalorizada naquilo que faço, também não sou dos que se sente ofendida com as tiradas de humor que os outros ditem sobre mim e, apesar de impulsiva já aprendi a dominar-me em relação aos comentários que de vez em quando me atacam.
Porém perco o «controlo» com os hipócritas, os que atiram a pedra e escondem a mão, os mentirosos e também aqueles que a coberto de pertencerem aos media são permanentemente maldizentes.
O Dr Miguel Sousa Tavares permite-se a coberto de uma frontalidade, na minha opinião duvidosa, aproveitar os seus espaços de escrita semanal para reiterar o seu «desprezo» por determinadas classes, refiro-me concretamente à dos professores, quando no Jornal Expresso do dia 1 de Maio, volta a lembrar-se das «amáveis» palavras que durante muito tempo tem vindo a dirigir aos mesmos. Lembra-se deles de forma sarcástica sempre que algo de que não gosta acontece neste país.
Tem pena de não ter sido professor? Ainda vai a tempo de exercer essa actividade numa escola pública.
Andou na escola pública? Os seus filhos frequentam a escola pública? Se assim for conhece-a bem...
Eu movimento-me nela há quase 40 anos e orgulhei-me sempre de ser professora, embora ultimamente em sofrimento pelo que dela fizeram os políticos da sua geração.
Eu comecei antes do 25 de Abril. Dei aulas a sério! Os alunos estudavam, os professores trabalhavam e os pais confiavam.
Agora com os políticos, de quem o sr também diz muitas vezes mal, mas com quem convive, fizeram de mim uma «enterteiner». Sabe o que fiz? Acho que o Sr Doutor vai ficar contente.
Pedi a reforma antecipada três anos.
Sabe o que aconteceu? Convidaram-me para o ensino particular. Sabe o que respondi? Não.
Eu gosto igualmente de todos os meninos e não apenas dos seleccionados pelo dinheiro.
Deixe os professores e escreva sobre o que conhece bem. Ponha-se de bem com a vida. Eu na escola com as crianças tive sempre um sorriso e um abraço nas horas mais difíceis.
Vou reproduzir as suas palavras para que os meus amigos mais distraídos fiquem a par:
«Acabou-se a festa, pá!»
«Escrevo depois de ter perdido meia hora de trabalho bloqueado por uma qualquer manifestação em S. Bento -não sei se de professores ainda em luta da abolição dos últimos resquícios da fracassada tentativa governamental de os pôr a ganhar de acordo com o mérito e a produção, ou se outro sector que terão lido as tarjas pela CGTP no Marquês de Pombal: «Exigimos aumento de salários e pensões».

Parei aqui a leitura da sua inusitada crónica.
A minha consciência, ao pedir a reforma antecipada em três anos, está tranquila e convivo com todos os meus ex-alunos desde os doutores até aos perdidos nas encruzilhadas da vida e estão igualmente no meu coração.O Sr tem-me desiludido muito como pessoa (mas que importa a opinião de uma professora!).
Dir-lhe-ei ainda que fui uma das professoras que por duas vezes esteve nas manifestações em Lisboa e, pela 1ª vez na minha vida fiz greve.
Ah! já agora sobre mérito da avaliação proponho-lhe que leia um «textito» sobre a minha avaliação do último ano aqui neste blog. Eu não lhe chamaria «mérito» mas a letra inicial seria a mesma, como maravilhosa.
Deixo-lhe um poema de Sophia de M. B. Andresen:

«Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.»

Prof. Cândida Ribeiro

4 comentários:

Anónimo disse...

Olá!
Tem toda a razão. Só se pode descrever o que é ser-se professor e quão difícil é (apesar de poder até ser recompensador) quando se é professor. Eu também não tenho grandes conhecimentos sobre esta profissão e por enquanto sou apenas aluna, mas acredito que não tenha sido fácil!!

Um beijinho grande

Francisca

Cândida disse...

Querida aluna:

Estás mesmo a seguir-me! Obrigada.
Percebeste a minha mensagem e numa menina como tu é bom.
Sabes como eu gosto dos alunos, não sabes?
Pois há adultos que não percebem nada do que é uma escola pública, nem a felicidade que é receber um poema como o teu.
Um enorme abraço
Prof. Cândida Ribeiro

Anónimo disse...

Touché!Grande Candida.Sou dos tempos do 25 de Abril como aluna, mas sou destes tempos como professora e tenho pena do que vejo a acontecer nas nossas escolas.Nem acredito que vá embora!Perde-se mais uma PROFESSORA, mas sei que se continua a ter uma defensora da escola e dos alunos.Eu aqui andarei por muitos mais anos e sempre seguirei com o que aprendi de si.Obrigado por nos termos conhecido.Pilar

Cândida disse...

Cara colega e amiga:

Obrigada pelo teu comentário. Vou embora mas o meu coração ficará com os amigos. Vou continuar a ser professora de outra forma,isto é, ficarei ao vosso dispor para continuar a trocar ideias e ajudar com a minha experiência no que me for possível.
Sei que muitos dos meus amigos que ficam irão sofrer com a incompetência de políticos mediocres.
Mas quando se olha para os alunos e se Vê aquela luzinha no olhar...
Eu é que agradeço ter tido o privilégio de ter conhecido e apesar de não ser na mesma escola, termos podido trabalhar juntas.
Um abraço do tamanho do mundo
Cândida Ribeiro

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