segunda-feira, 4 de abril de 2011

HISTÓRIAS E ALUNOS

A História que li aos meninos nesse dia chamava-se :«A história de um botão» e todos ficaram entusiasmado e contentes. Todos gostaram da história. A actividade que se seguiu entusiasmou-os mais ainda, pois, teriam que procurar o botão preferido nas várias peças de roupa que cada um guardava no armário e escrever a história do botão escolhido. Eu própria devia escrever a história do meu botão preferido. Esta foi a história que escrevi e lhes li.

A Joana, de 10 anos, no fim da leitura disse-me:

-Ó professora, sabe, fiquei a conhecê-la melhor e foi muito bom!


O BOTÂO SONHADOR
Decorria o ano de 1970 quando cheguei a casa daquela menina como presente de aniversário dos seus 16 anos. Eu era um dos botões daquele casaco azul com que ela sonhava havia algum tempo. Nessa época a «granda moda» eram os casacos «máxi», por isso, o casaco tinha vários botões colocados dois a dois e lado a lado. Eram 10 na frente e dois em cada manga. É que o casaco era de trespasse. O meu lugar era mesmo sobre o coração da menina, por isso, eu ouvia-lhe o bater e às vezes até me assustava, especialmente quando batia mais depressa.

Sabem, esta menina ia fazer uma longa viagem!

Nesse dia a menina levantou-se mais cedo, arranjou-se , fechou uma grande mala de roupa e olhou em redor para o quarto onde vivera feliz 16 anos. Vestiu o casaco que a ajudou a ficar mais bonita e confortável naquela manhã de Outono, já fria na Guarda , entrou no carro e com os pais rumou à estação da CP.

Ela ia estudar para o Porto, ia continuar a crescer agora, mais sózinha e entregue a si própria. E eu sonhava com a viagem e a nova vida daquela menina. Já dentro do comboio, olhou através da janela para a gare com os olhos marejados de lágrimas onde estavam o pai e a mãe que sorriam mas magoados com a partida dela.. .

O comboio apitou e a menina com a mão acariciava-me rodando-me em volta da linha que me prendia ao casaco. Tanto rodou, tanto rodou, que me desprendi e lhe caí na mão.

A menina olhou-me na mão e com os olhos marejados de lágrimas, pensou que quando chegasse me voltaria a cozer no meu cantinho preferido.

Eu também fiquei triste por que deixei de ouvir o bater do seu coração mas sentia as suas lágrimas a cair: pim! pim! pim! e a molharem-me, esquecido por momentos, na palma da sua mão.

A menina guardou-me na carteira.

Chegados ao Porto, fui recolocado no lado esquerdo do casaco e aí vivi vários anos feliz e aconchegado no peito da menina. Nessa época os casacos duravam muito e eram estimados pois, às vezes eram únicos. Lembro-me de ela se ver ao espelho, voltar-se de um lado e de outro e achava-se sempre bonita no seu casaco azul. Já a viver no Porto, viajava de autocarro, de trolley sempre preso ao casaco azul da menina e, através da janela eu via as árvores e as casas da Avenida de Gaia (árvores que, infelizmente já foram derrubadas) e depois a pé subiamos os Clérigos, as Carmelitas e chegávamos à Praça dos Leões.

Naquela enorme praça ficava a Faculdade de Letras que a menina frequentava e onde se preparava para ser professora.

Os anos foram passando e o casaco estava a ficar velho e, como todos os casacos foi parar ao «lixo», não sem que a menina, já quase uma senhora, tirasse os botões ao casaco (quem sabe se poderiam vir a servir para outra peça de roupa!) e guardou-os numa caixa.

Passaram 36 anos e eu feliz, há poucos dias, saí da caixa escura e fui depositado numa caixa transparente junto aos outros botões que cada menino escolheu,cada um com uma história diferente, e voltei a ver «meninos e meninas» sorridentes e felizes a crescerem como a menina do casaco azul que hoje é professora e juntou o seu botão preferido e a sua história aos botões dos alunos e às suas histórias.

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