
SER PROFESSOR também é isto...
Já passaram alguns anos e os alunos foram passando pela minha vida como se de um filme se tratasse.
Uns passaram despercebidos pela timidez, outros deixaram de se cruzar comigo por este ou aquele motivo mas eles vão ficando na minha memória, até que um dia e de surpresa voltam a aparecer já homens e mulheres.
Hoje, fui surpreendida num jornal semanal pela fotografia de um aluno de há vários anos. Este era um aluno especial, pois, sofria de paralisia cerebral na forma tetraparesia espática grave associada a coreoatetose com dependência de 90/º
Eu era jovem e a minha experiência na área de apoio à deficiência era nula. O Zé foi meu aluno a Português, História e fui também Directora de Turma.
Uma Turma reduzida , pois, integrado tinha um outro aluno também especial, o Manuel, dócil e calmo mas também condenado a ficar brevemente preso à cadeira de rodas.
Mas voltando ao Zé Henriques, aluno simpático e muito esforçado tentava dentro das limitações da doença uma participação activa e permanente na aula.
Na nossa aula havia sempre dois elementos estranhos: o computador/capacete e ponteiro que ele usava muito bem e um professor do 1ºciclo, que o apoiava individualmente, o professor Zé Fernandes, um simpático Transmontano, que se manteve até hoje grande amigo.
Confesso que muitas vezes tive medo de não cumprir com eficácia e resultados a minha função de professora mas com o decorrer do tempo as coisas foram encaixando e eu fui ganhando mais confiança.
A turma era «difícil» mas eu tinha-os fechadinhos na palma da minha mão. Unia-nos uma amizade e ternura imensas.
No fim de cada aula o prémio era a continuação da leitura da história que vinha sendo lida nos últimos minutos de cada aula.
Era preciso serem todos bem comportados. Não tinham livros, não liam. Aquele era um momento que cada um começou a agarrar como seu. Era um espaço de partilha breve mas intenso. Um dia li-lhes uma frase que eu própria lera algures: «Um espectáculo de emoções é como eu defino a hora do conto vivida aqui.» Todos acharam a frase bonita e registaram-na.
Mas passaram muitos anos e os alunos desta turma mudaram de Escola para frequentarem o 7ºano. Durante dois, três anos, consegui, pela proximidade da Escola que frequentavam da minha, seguir o seu percurso e dava-me sempre um prazer imenso, ver o seu crescimento. Deu-se, depois, um enorme hiato de tempo, alguns anos, e a surpresa foi enorme quando li a entrevista do Zé que tirou o curso de Psicologia e falava dos seus sonhos. Foi uma enorme surpresa mas sobretudo uma emoção forte ao ler e ver a fotografia daquele menino que eu conheci, ajudei a crescer e, que continuou a lutar transformando-se neste homem lindo e afável.
São estas histórias de vida que nos fazem sentir que ser professora, apesar de tudo, valeu a pena. A mim em particular faz-me sentir que não foi em vão que dediquei a minha vida ao ensino.
Estes momentos são uma decorrência da minha vida de professora, profissão que exerci ao longo de 40 anos. Estive sempre habituada a trabalhar com a palavra. Se não fosse professora, não tinha escrito este texto nem outros que fui escrevendo ao longo dos anos.
Parece contraditório mas não tenho saudades da Escola. Tenho um olhar desencantado sobre a Escola actual. No entanto sublinho que muito daquilo que sou devo-o ao facto de ter sido professora. Tive uma grande paixão pela profissão, mas saudades da Escola, repito, não tenho. Dos alunos, desses, sim a saudade é imensa!
São imensas recordações, estas que agora revivo com um olhar carinhoso, nesta nova etapa da minha vida – a Reforma. São fotografias, textos, poemas, recados, desabafos escritos, trabalhos que me ofereceram e eu guardo com carinho numa caixa própria a que chamei «a minha caixa de memórias.»
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