terça-feira, 6 de abril de 2010

A Hora do Conto


A Hora do Conto, na Biblioteca, tem-me feito viver momentos mágicos carregados de onírico e muita alegria.
O grupo começou «pequenino» mas foi aumentando com «cada menino tráz um amigo».
A Ana Rita era frequentadora da BE mas é uma menina tímida e solitária. O seu ar é triste... Observei-a durante algum tempo e arrisquei convidá-la a assistir à hora do conto. Recusou mas o que verdadeiramente me espantou foi a razão que me deu:«-Não obrigada. Eu não gosto de histórias nem de as ouvir ler».
Foi o que de mais «estranho» ouvi da boca de um aluno na minha já longa carreira de professora.
Todas as semanas a hora do conto era publicitada através de um enorme cartaz colocado num cavalete à porta de entrada da BE/CRE (lindos cartazes, apelativos e coloridos construídos pela professora Lígia). Um dia logo pela manhã 9 horas (a hora do conto é às 10.45h), vi a Ana Rita a observar o cartaz e a ler as opiniões e sugestões lá apresentadas.
Olhei-a e apenas sorri, não fiz mais convites, nem lhe perguntei nada.
À hora do conto vi-a sentada na mesa mais próxima do cantinho, onde normalmente nos encontramos com as histórias, a olhar e a tentar ouvir a história que eu estava a contar.
Quando olhava o meu «público» , tentava olhá-la e sorria-lhe...
Nas semanas seguintes, a menina foi-se aproximando do grupo de espontânea vontade trazendo, de uma forma quase imperceptível, a própria cadeira e colocava-se atrás da «minha plateia». Timidamente sorria-me muitas vezes.
Aos poucos tornou-se assídua e pontual e, quando se atrasa um pouco puxa a cadeira em silêncio e senta-se de olho vivo e aberto e sorri-me sempre.
Na Semana da Leitura participou activamente das actividades propostas, dando a sua opinião escrita sobre o conto que ouvira ler.Era preciso afixar o trabalho no placard colocado na BE para o efeito, mas a Ana Rita fez-me, em surdina, um pedido:
«-Não o quero pôr aí, pois os meus colegas vão rir-se de mim.»
Eu estava a aprender a conhecê-la. A menina não confiava nos trabalhos que fazia...
Mostrei-lhe o trabalho que eu própria tinha feito dando a minha opinião sobre o meu último livro lido: «O meu coração ferido» de Martim Doerry e comparei-o com o dela, partilhando com a Ana algo de meu. Propus-lhe colocarmos os dois trabalhos lado a lado no placard.
A barreira de gelo, de que era feita a redoma da Ana, começou a derreter! A menina começou a acreditar nela e vem à BE/CRE sem forçar o sorriso, ocupando um lugar de leitora que é efectivamente dela.
Estou muito orgulhosa da leitora que eu ajudei a criar!

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