sexta-feira, 9 de abril de 2010

O LIVRO ABERTO DE UMA VIDA


O dia estava encoberto. A rua, a mesma de sempre no percurso habitual para a Escola. No ar sentia-se uma brisa suave mas inquietante. Não acredito em milagres mas, os «sinais» de que muitas vezes ouvira falar senti-os naquele momento!
Há cerca de 40 anos cheguei, com apenas vinte, pela primeira vez à Escola como PROFESSORA. Era uma 6ª feira de Outubro, solarenga e calma .
Entrei, nervosa e entusiasmada, na alameda do palacete rodeada de magnólias em flor. Ia tomar posse como professora, iniciar o exercício efectivo na 2ª feira, como seria normal na minha opinião, mas o Director recebeu-me e, de mansinho empurrou-me, nesse mesmo dia, para o início desta maravilhosa aventura que está prestes a terminar... Escrevi isto mesmo na carta aberta ao meu primeiro Director, Dr Edgar Carneiro, na Defesa de Espinho em 2008.
Os anos passaram depressa e, até o tempo estava condizente com o meu estado de espírito, pois, até o céu estava encoberto.
Era o dia 18 de Março, o meu pai faria 92 anos se não tivesse físicamente partido alguns meses antes.
A relação que tive com o meu pai foi sempre muito especial, diria mesmo, quase única.
Ele era o tronco de uma família feliz. Era único porque sabia escutar e falar. Ele era curioso e afável com os amigos e com a vida. A mim transmitiu-me essa curiosidade.
Os meus pais soltaram-me as amarras muito jovem, pois, tinha apenas 16 anos.Era uma idade inusitadamente jovem para a época. Saí da Guarda e rumei à grande cidade. Ele confiou e encorajou-me( aqui também a minha mãe ajudou) a perseguir o sonho, a tentar ser feliz, a ser PROFESSORA.
Quando diariamente penso no meu pai dá-me uma certa nostalgia e recordo todas as advertências que me fez em vida . Os valores que me inculcou têm-me servido bem na minha caminhada ao longo da vida, mas sobretudo na minha vivência como professora.
Voltando ao dia 18 de Março de 2010 e, eu creio no destino não tanto nas circunstâncias , senti ao chegar à Escola um sinal, um empurrãozinho leve para a esquerda que me obrigou a dirigir como que por intuição aos serviços administrativos e pedir uma simulação para a minha Reforma Antecipada. Era algo em que eu não tinha pensado nunca, era algo que eu não queria já.
Para mim ser Professora e estar com os alunos é um estímulo para que a minha cabeça e o meu coração estejam juntos. Foram muitos os momentos felizes que vivi com os alunos ao longo da minha carreira.
Nesse dia o click foi muito forte. Vim para casa, auscultei a minha família e no dia 19, não sei se por ironia do destino, dia do pai, às 12.04h assinei o meu pedido de «Reforma Antecipada». Recebi «um murro no estômago». O mundo parecia estar a desabar e eu chorei sózinha por momentos. Iria voltar atrás?
No dia seguinte recebi o 3º sinal mas esse vou guardá-lo no meu intímo e partilhá-lo só com os meus amigos mais próximos.
A motivação que cada um produz nas pessoas e em si próprio nasce sempre da paixão e eu vivi a vida profundamente e aproveitei o melhor que pude as minhas oportunidades.
Sou disciplinada, forte e muito afectiva o que fez com que na minha vida muitas vezes me superasse.
A política está presente nas nossas vidas e vai influenciando o nosso dia a dia. Não é que a política me aborreça, mas sou professora e a minha vida esteve e está completamente dedicada ao mundo das crianças. Mas não posso deixar de dizer que foi ela, «a política», que causou a desordem na Escola Pública e criou condições de desmotivação e desconforto no futuro que me fez seguir os sinais que me foram dados. Actualmente duvido que algum bom profissional seja feliz na Escola...
Amigos ficaram poucos mas suficientes para me sentir feliz sabendo que posso contar incondicionalmente com eles e ter neles plena confiança.
Também não tenho grandes sonhos mas a imagem do meu pai está sempre ali, sempre presente e a dizer-me que é sempre possível cair mas é obrigatório levantar-me e prosseguir.
Obrigada meu PAI!
Cumpri quase 40 anos de emoções na escola, de admiração profunda por muitos e bons profissionais, anos de muita coisa bonita com os alunos. Repetiria tudo começando agora mesmo.
Todos somos animados por um dom a certa altura das nossas vidas que ás vezes ignoramos. Quando se encontra esse dom e o «agarramos» seremos mais felizes.
Cândida Ribeiro

4 comentários:

Isabel disse...

Muito lindo o seu texto! É bom amarmos o que fazemos e ser Professora é mágico! Aprender, ensinar, sentir, escutar, viver a magia com as crianças! Que o nosso sonho continue... Muitos Parabéns!

Cândida disse...

Isabel:

Quando vivemos intensamente a vida de professora, tornamo-nos incompreendidas e às vezes somos levadas ao desânimo. São muitos anos e muitos obstáculos que temos de vencer.Mas tu és jovem e tens dentro de ti a força de que precisas. Fico mais descansada por saber que os alunos ficam entregues a jovens professoras que comigo se estão a cruzar.
Quero continuar a viver essa magia de que falas.
E os sonhos são para continuar, especialmente enquanto houver professores como aqueles que partilham comigo o maravilhoso sonho que se vive na BE da Escola Sá Couto.
Um beijo(para os dois!!)
Cândida Ribeiro

Anónimo disse...

O seu texto está lindo :)
Fico feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar e passar algum tempo consigo, como aluna e, felizmente, como amiga. Eu já gostava muito de ler, mas, quando fui sua aluna, ler e escrever ganhou outro sentido...
A professora deixou uma marca forte no lado bom do meu coração, assim como muitos outros amigos o fizeram.
Obrigada por tudo
Beijo
Francisca

Cândida disse...

Olá Francisca:

Um dia vais compreender o que sente uma professora por ter tido uma aluna como tu.Fico feliz por ler e escrever tenha agora outro sentido.
Um livro para mim é um amigo tão importante que com eles nunca estou só.
Estou a ler «O Diário de Ma Yan», uma história de
uma menina chinesa que tinha uma enorme vontade de frequentar a escola e para isso fez os maiores sacrífícios.
É comovente.
Tu também estás no meu coração
Beijos
Prof. Cândida

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