segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O OCASO DE UMA VIDA de TRABALHO


Era o início de Setembro de 2010. Regressávamos de férias. Um novo ano lectivo ia iniciar-se e todas as rotinas se desenvolviam sem sobressaltos, quando algo de muito grave aconteceu na minha vida, no final de carreira, que me obrigou a antecipar a minha saída através de atestado médico.
Afastei-me sózinha e pude reflectir nos dias que se seguiram.
Para obviar o corte abrupto de uma vida de entrega e paixão pela escola e pelos alunos, escrevi e guardei como se de um diário se tratasse. para fazer um luto em dose dupla: O fim da carreira e uma traição violenta de quem não esperava.

7 de Outubro de 2010, 17horas, Bar das Sereias.
O dia estava de sol. Quatro jovens abandonaram o bar, onde nos encontrávamos, e avançaram na areia em direcção ao mar. Eles conversavam, de chinelos na mão, e avançavam devagar para junto delas. Só já lhes vejo a cabeça, com o cabelo revolto pelo vento norte.
Desapareceram, que pena!
Às costas do pai está um bébé loiro que gesticula! Sorri-me, é mais uma coisa boa na minha vida, um sorriso de criança!
Estou dentro do bar, pois apesar do sol de hoje, já choveu muito e o vento Norte incomoda.
A praia está deserta!
Logo ali, o mar está revolto como a minha alma. Sinto uma solidão atroz, própria talvez de quem parte agora para uma nova fase da sua vida.
A espuma branca das ondas, que se desfazem e correm pela praia como que a querer abraçar-me, aquieta-me um pouco, mas o vazio e a mágoa mantêm-se.
Não é em vão que se dedica uma vida inteira a uma causa -a da Educação - e ao fim de quase 40 anos sai-se sózinho, doente e traído por aqueles ao lado de quem travámos batalhas, ganhas umas e perdidas outras, é certo, confidências e opiniões trocadas para que a vida na escola fosse mais feliz e com os alunos caminharmos de mãos dadas com vista ao futuro.
Palavra vã esta de futuro em igualdade.!
Bastava um sorriso, um acenar de longe e a alma dos que partem, com a consciência do dever cumprido, como eu, iluminar-se-ia e deixaria de se sentir tão tumultuada e perdida como as ondas alterosas e encrispadas do mar, que não me canso de observar, por sentir esse sentimento intenso dentro de mim: revolta, desilusão, arrependimento de ter acreditado que o mundo é bom e a escola um lugar mágico.
Hoje, o dia chorou comigo.De manhã choveu muito apesar de ainda ser Verão. Agora, o sol abriu e eu quero acreditar que também um dia ele voltará ao meu coração.
Não sou de despedidas programadas nem gosto de dizer adeus. Comove-me e perturba-me. Choro com facilidade mas mantenho-me firme e incondicional com os amigos. Mas... maldita impulsividade e frontalidade que às vezes se viram contra mim.!!!
Quantas vezes pedi para que um qualquer«raio» divino me travasse em muitos momentos, me ajudasse a ser hipócrita e jogar o jogo da minha conveniência, como muitos ao meu lado fizeram!
Nunca o fiz!! Não era capaz!
Não pedi favores à escola nem a quem a dirige. Nunca!
Estive sempre nas primeiras linhas das batalhas a travar e contribui com o possivel para que a escola continuasse a ser o lugar aprazível e encantado onde eu também vivi. Defendi sempre o meu local de trabalho e os dirigentes. Estes desiludiram-me e atreveram-se a humilhar-me publicamente por duas vezes. Imperdoável esta ditadura neste tempo de mudança...
Engano, a provocar-me desilusão e tristeza..

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